19/06/2011

"Mas um dia você vai conseguir"

Bem, há anos que ouço essa frase e há anos que sofro com ela.
A primeira vez que a ouvi, foi quando minha mãe foi visitar meu irmão que mora longe e, claro, queria ir com ela conhecer terras novas. Sem dinheiro e sem clima pra levar a filha pequena, ela respondeu: "Ananda, você ainda vai viajar muito".
Acho essa frase constrangedora. A partir do momento em que você fala uma coisa, ela se torna concreta; e a partir de quando ela se concretiza, a coisa engrandece. Então, até nas pequenas coisas que perdi ou fracassei, ouço essa frase, engrandecendo a tristeza e concretizando-a e, o pior de tudo, alimentando esperanças.
Alimentar esperanças é a pior coisa dessa porra toda, pois quando se vive num lugar e em certas condições onde não há nenhuma, o melhor é que essa tal esperança passe mesmo fome. Eu falo isso porque, inevitavelmente, já consigo saciá-la sozinha.
Nesse exato momento, ouvi uma frase parecida pois eu queria ir no show do Lucas Santtana e não pude ir. Sim, estou chateada, me chateei com a frase, e talvez por isso que eu tenha vindo aqui. Fiz o desabafo para pessoas que não tem a ver com isso, mas sem problemas, que amanhã será um novo dia e ninguém se lembrará de nada mesmo...

17/06/2011

Vínculos.


O texto da semana é sobre vínculos. Vínculos aqueles que são necessários para a toda a nossa construção, pois ajudam a suportar, principalmente, as coisas mais pesadas.
Com eles, conseguimos construir coisas que jamais seriam construídas se não os houvesse, e são tantos os benefícios que são trazidos que estes chegam a ser inumeráveis.
O problema vem quando eles precisam de cálculos para funcionar. É, cálculos!
Desenhar vínculos é até uma coisa divertida, pois há aquela leve tensão de errar o desenho à caneta. Mas depois que se acaba o desenho, você vai ter que resolver aquela bagaça. Aí a tensão, que era leve, pesa, e justamente na hora que você está tentando achar os valores certos dos vínculos não há nenhum pra suportar a sua tensão. Ironia, não?
O que convém é que eu crio, copio, copio de novo e crio mais um pouco (e estudo, claro), mas ainda assim os valores das forças dos meus vínculos nunca estão certos. Podem dizer que eu preciso estudar mais (e copiar e criar e copiar e criar e etc), mas enquanto não, eu quero dizer pra vocês, vínculos, que detesto vocês enquanto não aumentarem minha nota e que quero que vocês vão para o raio que os parta!
Construção civil, seus vínculos são tão importantes quanto vínculos que nós, pessoas, temos umas com as outras ou até mais, pois suportam nós, pessoas, junto com nossos vínculos. Em compensação, a gente tem outra coisa: a-mor-no-co-ra-ção. Hahahahaha... Tchau, vínculos! Eu não te odeio tanto assim, eu juro!

05/06/2011

As fábulas enganam

O que mais a impressionou no passeio foi a miséria geral, a falta de cultivo, a pobreza das casas, o ar triste, abatido da gente pobre. Educada na cidade, ela tinha dos roceiros idéia de que eram felizes, saudáveis e alegres. Havendo tanto barro, tanta água, por que as casas não eram de tijolos e não tinham telhas? Era sempre aquele sapé sinistro e aquele sopapo que deixava ver a trama de varas, como esqueleto de um doente. Por que ao redor dessas casas não havia culturas, uma horta, um pomar? Não seria fácil, um trabalho de horas? E não havia gado, nem grande nem pequeno. Era raro uma cabra, um carneiro. Por quê? Mesmo nas fazendas, o espetáculo não era mais animador. Todas soturnas, baixas, quase sem o pomar olente e a horta suculenta. A não ser o café e um milharal, aqui e ali, ela não pôde ver outra lavoura, outra indústria agrícola. Não podia ser preguiça só ou indolência. Para o seu gasto, para uso próprio, o homem tem sempre energia pra trabalhar. As populações mais acusadas de preguiça trabalham relativamente. Na África, na Índia, na Conchinchina, em toda a parte, os casais, as famílias, as tribos, plantam um pouco, algumas coisas para eles. Seria a terra? Que seria? E todas essas questões desafiavam a sua curiosidade, o seu desejo de saber, e também a sua piedade e simpatia por aqueles párias, maltrapilhos, mal alojados, talvez com fome, sorumbáticos!...

Lima Barreto, O triste fim de Policarpo Quaresma, Capítulo 3, 2ª parte, pág 110.